sábado, 20 de fevereiro de 2010

O homem sem sobrenome


Para aqueles que só tem o peso do nome e ainda não encontraram o caminho de casa.

A importância de um sobrenome é fundamental e vale pensarmos a razão de um nome vir por sobre outro, daí "sobrenome".

No início era o verbo.

Nascia o nenê, olhava-se para ele e o nome era pronunciado para identificar aquele ser que chegava. Os ciganos sopram o verdadeiro nome no ouvido do nenê e somente a mãe e filho sabem o nome. Místico, não acha?!

A primeira marca está fixada na criança que carregará consigo a dor e a delícia de não ter sido "chamado" por outro nome mais bonito ou na moda.

Como as crianças começaram a nascer e várias tinham nomes idênticos, para homenagear algum ente querido, um herói ou por falta de criatividade mesmo, passou-se a um problema maior que era o de identificar corretamente de quem era aquela Maria ou aquele João.

Então, recebemos o nome por cima do nome para marcar "filho de" quem era. Em inglês temos o son para essa identificação: Anderson, Jefferson, Peterson e assim por diante. Da mesma forma em russo temos o ich em nomes como Ivanovich. E deve ser assim em several languages.

Já as moças não receberam atenção especial em tantas línguas assim. Em russo mesmo temos a terminação ova para identificar "filha de" em nomes como Romanova.

Mas ainda assim não foi suficiente a marca de diferenciação entre tantas Romanovas e Andersons.

Era preciso cravar na criança a região onde seu clã vivia, portanto temos o clã Costa, que viva na costa marítima, o clã Belvedere (Ver o Belo), o clã Riverdale e por aí vai.

Temos os Alves que viviam em regiões alvas pela neve, assim como os White em inglês ou Weiber em alemão, que recebiam esse nome sobre o nome para indicar que eram muito brancos.

E temos ainda os Machados, os Smiths (ferreiros), os Zapatero (sapateiro) que, por uma questão muito óbvia eram renomeados pela atividade laboral que exerciam. Vale lembrar alguns sobrenomes não tão agradáveis, como em espanhol os Expedito (aqueles que foram expedidos para os conventos), que designavam aqueles que haviam sido abandonados e eram órfãos. Em português temos sobrenomes assim. Vale a pena investigar!

Mas não terminamos ainda!

Faltam os Oliveiras, os Pereiras, os Figueiras, os Silva (sim!) que eram clãs marcados pela sua produção agrícola ou pela região que possuía muitos arbustos ou árvores com aquele nome. Esses também foram sobrenomes escolhidos para esconder a origem de algumas famílias e transformar a adaptação à nova vida mais suave.

Portanto, o sobrenome indica profissão, lugar de procedência, exercício agrícola, características físicas e filho de quem é aquela pessoa humana.

Por hoje fica a dúvida: e quem só tem nome? Tem identidade?

Salam Aleikum!

Diálogos Hiper Modernos



"Collin, converse comigo.

Fique aí com seus olhinhos pequenos e perdidos e deixe que eu faça de você o homem que não anda nas ruas.

É tão bom te olhar e você aceitar meu olhar amoroso e terno.

Você é tudo, imóvel e doce homem com cara de perdido!

Me ame, Collin. Suavemente e me toque com força. Mas seja carinhoso e delicado. Não fale bobagens e palavrões, Collin! Isso acaba com o clima, honey!

Será que você fuma? É tão desagradável homem que cheira a cinzeiro...

Tome a iniciativa, mas não seja rápido demais, senão pensarei que você é inseguro!

Se formos jantar fora, Collin, deixe que eu mesma abra a porta (não quero que fique olhando minha bunda, apesar de eu amar olhar a sua!).

Se você pedir champagne seria tão romântico! E a conta? Ah, a conta, espero que você pague com aquele gesto másculo apoiado em um cotovelo, franjinha caída ao lado, apontando o cartão de crédito dourado-mágico para o maitre.

Pois então, Collin, foi bom conversar com você. Aqui fica tudo tão mais fácil sweetie.

Beijo, me liga. "

Resposta:

"My sweetest girl:

Olhar para você me deixa tonto e ler o que acabou de me escrever, mais desnorteado me deixou.

Sua delicadeza sutilmente disfarçada em assertividade é algo tão navalhado quanto seu cabelinho curto fashion, darling!

Sou alvo de seu desejo e de suas fantasias, sweetie, mas você não sabe como lidar com nenhum deles.

Me deseja como homem de papel, imóvel e doce, por esperar que a doçura volte a fazer sentido na sua vida extirpada dela.

Honey, você quer ser resolvida agindo como superpotente e deixou a fragilidade comigo. Não sou muito afeito à essas arbitrariedades, sweet heart. Sua beleza feminina quase evapora em suas atitudes severas e auto convencidas: quer romance na base de poder e dinheiro, poor girl!

Sinto ter sido tornado tão objeto, em lugar de ser o homem dominante que costumava estar em alta anos atrás.

Hoje, sobrou somente o papel de garoto meigo, perdido e submetido à seus caprichos cruéis que não têm pé, nem cabeça.

Sorry, darling, qual é mesmo o jogo da sedução hoje?

Collin Farrell".


Esta é uma obra de ficção.

Qualque semelhança com fatos, situações e pessoais reais é semelhança com fatos, situações e pessoais reais.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Meu Portugal querido!


Alguém da cidade de Guarda, em Portugal, dedicou alguns minutos da sua vida lendo algum texto deste blog e me arrancou de meus assuntos tão íntimos para alçar voo na saudade da terra de Camões.

Meu avô materno chamou-se Afonso, como tantos Afonsos eu encontrei em Lisboa, em 1999. Algo havia nesse nome que espalhava-se entre jovens e senhores pelas ruas e cidadelas de Portugal.

Afonso, que significa "nobre e diligente atencioso", foi o primeiro rei de Portugal, que libertou o país do reino de Leão e Castela em 1143. Foi chamado O Conquistador e pelos muçulmanos El Bortukali ( O Português).

Assim ficou fácil entender o por que de tantos Afonsos, assim como Vascos e Paulos.

Portugal é terra de calor humano. Cada centímetro de chão me fazia sentir que estava em casa, pela língua mater, som tão familiar, em tão distante terra. Eu me sentia pertencente àquele sítio, caminhando por Alfama, passando por Estoril, que era o local original do nome que eu conhecia desde criança em São Paulo.

Tenho grandes amigos portugueses e saudades maiores ainda.

O cheiro de castanhas torradas entre as ruas dos Douradores e da Prata. Os azulejos azuis indefectíveis que estão em minha casa, assim como o galo de Barcelos e o vinho de Palmela.

O lugar mais amoroso do mundo é Portugal.

A Serra da Arrábida, o farol de Sesimbra e o rio Labão, em Tomar. As oliveiras mágicas e o pão alentejano que parece pão feito pelo nosso avô.

A sensação de pertença é tão forte, sensação causada pela língua em comum, que parecia que eu já estivesse passado por ali.

A praia do Restelo, do inspirado poema, me fazia ver as naus partindo. O farol de Belém e as aspirações de terra-além-mar (e saber que nessa terra eu vivia!).

A ponte 25 de Abril cantava sob as rodas da XR-250, rumo a Almada, o rio Tejo visível pelo gradil, causando uma doce vertigem à passagem.

Todas essas memórias estão permeadas pelo amor, pela amizade das gentes portuguesas adoráveis.

Saudades imensas, como só a língua portuguesa pode expressar o sentido na palavra SAUDADE!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os olhos de Lu Kleppa


Poucas vezes escrevi sobre alguém em meus posts e hoje será um dedicado à Lu Kleppa, que tem nome de diva.

Caminhando hoje de volta para casa, alguns devaneios ainda sem formato começaram a se arremessar entre meus pensamentos formais e olhei para uma mulher que caminhava em minha direção.

Seus olhos não continham perguntas, muito menos respostas. Aqueles olhos só olhavam para dentro. E me desculpem o pleonasmo proposital.

A mulher pisava o chão como se pisasse cruelmente seus sonhos e desejos. Era parcimoniosa, gorda e vazia. Tinha os olhos ocos. É obvio que ela não me viu, tamanho era seu prazer em alfinetar-se à cada passo.

A imagem me impressionou e os pensamentos voaram e voltaram me trazendo a palavra Ânima.

A ânima, nosso sopro de vida, nossa energia exclusivamente humana nos potencializa e, ao mesmo tempo nos brinda com dores igualmente humanas: a angústia, a dúvida, a fraqueza diante da perda, a impotência contra a morte. Nossas feridas narcísicas.

Com a consciência da morte é que nos tornamos conscientes da vida, sensibilizados pelas tragédias humanas, como o desespero, a solidão, a tristeza, a falta, o abandono, a dor.

E é nesse vortex de potências e tragédias que a ânima existe. A ânima é o próprio vortex.
Os olhos de Lu Kleppa são translúcidos e posso ver seu vortex anímico, perfeitamente. Suas perguntas trágicas estão ali e logo dão lugar à tonalidades fortes da garra pela vida. Vão, turbilhonam-se e das profundezas da alma sobem a esperança, a angústia e a incerteza.

Aqueles olhos cristalizam-se em imagens terrificantes, choram, enquanto ela sorri e em seguida trazem à tona a calma azul de um olhar materno, aprovador, continente.

Enquanto ela fala, os olhos trazem a paz e a fúria, que rapidamente passam às dúvidas, dores e fracassos inconfessos.

Os olhos de Lu Kleppa veem o que as mulheres destes tempos veem.

Estão atentos à modernidade, são contemporâneos às incertezas e caos, ao mesmo tempo em que espelham a alma humana, o doce enlevo dos sentimentos e mantém o poder de Prometeu que trouxe o fogo à humanidade.

O poder lúcido de sentir, ser e fazer.

Esses são os olhos de Lu Kleppa.

Os olhos de todas as mulheres do mundo.

Salut!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para um ser vazio


Prossigo na trilogia "Para um" sem saber ao início que seria uma trilogia. Talvez até passe de três, quem sabe...daí se tornará sequência como nos filmes.
Gosto de reler meus textos antes de começar a escrever um novo, talvez na tentativa de encontrar pontos a arrematar, ou mesmo descobrir o que me demove 'entrópicamente'.
Constatei que venho escrevendo sobre esvaziamento e noções de como lidar com ele. O famoso vazio que já veio de brinde quando nascemos. Literalmente nascemos vazios e vamos, vida à fora, preenchendo o oco que ainda não ocupamos.
Uma de minhas teorias cotidianas esdúxulas, mas verossímel e aceita por algumas pessoas é de que cada ser humano precisa ocupar todo o espaço que sua condição biológica lhe deu. Conforme crescemos, nosso espírito precisa ocupar o invólucro preestabelecido, o corpo e, se possível, transcendê-lo.
Se somente ocupamos de forma precária nosso corpo, somos pessoas com algum espírito. Se transcendemos a embalagem que nos foi destinada, desenvolvemos ânima e migramos para a dimensão do que é humano realmente.
Animais possuem espírito, mas somente seres humanos se preocupam com outros seres humanos. Podemos permanecer a vida inteira no âmbito animalesco da sobrevivência, lutando e competindo por coisas que desaparecerão quando partirmos. Se agimos assim, a vida perde o sentido e as coisas começam a serem colocadas no lugar do espírito. Queremos ter, queremos poder, queremos parecer.
Já quando ultrapassamos, break on thru to the other side, passamos à dimensão estética e ética, deixamos o corpo e as fantasias de potência. Na esfera estética está o humano. Está a beleza ao lado da tragédia. Está o ser, o saber-se impotente, a dor. Nos tornamos maiores que a embalagem, porque aceitamos nossa condição trágica humana e passamos à dimensão simbólica, abstrata e verdadeiramente lúcida da vida e da existência.
É lá que os filósofos perambulam. Os loucos divinos e as crianças que não foram corrompidas. É na esfera estética que sentimos e verdadeiramente amamos as imperfeições, as faltas e ausências. Perdoamos aqueles que nos abandonam e esquecemos as mesquinharias e pobrezas de espírito tão em moda. Amamos o silêncio.
Alguns chamam essa transcendência de aura e podem vê-la. Ficam maravilhados e procuram tocar, nem que seja a barra da túnica do ser aurático.
Como deixar de ser imediatista e animalesco e passar à ser humano?
Com a Vontade, que é divina, enquanto expressão da alma humana.


Shalom!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Para um amor inexistente


Melancolias à parte vou escrever sobre o amor.
Eu postei lá no orkut (que era meu blog inicialmente) que nunca mais escreveria sobre o amor. Mudei de idéia, porque à época o amor doía e hoje não dói mais: meta-morfose-ou-se.

Falar de amor é sempre anacrônico e brega anyway. Nunca estamos preparados para amar e idealizamos alguém que caiba em nossos sonhos.

O amor romântico, idealizado, está em circulação desde Tristão e Isolda e os romances cavalheirescos.

Mas se contemporalizarmos um pouco, você pode dispensar amor à alguém e não receber nada em troca e ainda saber que isso não dói.

Só dói quando você esperava recompensas que não vieram. A pessoa não reconheceu você, explorou o que pôde e saiu fora. Se havia expectativa, havia cobrança. Se havia cobrança...o amor havia morrido e você não percebeu.

Ontem escrevi sobre a amizade e o amor que há nela. Hoje escrevo nada diferente. Ser amigo de alguém é amá-lo, é ser soul mate.

Lembrando o motivo de eu ter escrito dois anos atrás que nunca mais escreveria sobre o amor, lembrei que o amor é atemporal, que renasce como flor roxa.

Que é verbo intransitivo.

Que é amorfo e multifacetado, o que em si já é uma contradição. Você o coloca onde quiser que ele toma a forma do receptáculo. Se for tiny, lá ele fica. Se for oceânico, ele inunda as vazantes.

Ele é esférico e gira em todas as direções. É saudável, doce e mantém sempre a inocência infantil, aquela que vibra com o raio de luz atravessando o fio de cabelo ruivo.

É conteúdo e continente. Mais vasto que as estepes e desertos juntos.

E cabe dentro de você, perfeitamente.

Avohai!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Para um amigo distante


Amigos tem circunstâncias que os criam ou que os pulverizam.

Há amigos por "oportunidade", amigos "negócios" (bons de investimento) e amigos "poço sem fundo".

Importante é não confundir oportunidade com relacionamento de mão dupla. Muitas vezes o pacote que nos oferecem é brilhante e com laçarote excitante, mas na realidade não apresenta coisa boa lá por dentro.

Quando há amizade, há algo de dor macomunada. O sentimento de mão dupla. O amigo sente a dor junto, apesar de não doer tanto ali dentro dele. Quando a dor é partilhada, pare e observe bem: ali pode ser que haja um amigo. Se ele não tem dor lá dentro, dor sentida, então não consegue ser amigo.

Há dois dias atrás percebi que um ex-amigo visitou meu perfil no orkut e saiu sem deixar bilhete embaixo da porta. Somente aquele vulto sombrio do passado em minha lista de visitantes enublou minha noite e um ar severo cobriu meu rosto.

Lembrei que houve um dia que o chamei de alguma coisa boba e ele me puniu. Fez uma cena melodramática, não aceitou minhas desculpas e eu perdi o controle com tamanha perversidade. Doeu. Foi a dor mal curada dele que me invadiu e enlouqueceu.

Às vezes somos amigos que ouvem e dão suporte. Até faço isso bem. O problema é a recíproca. Quase nunca acontece, portanto nem chega a haver dúvidas se é verdadeira.

Há amigos "vampiros" que sugam e esgotam. E muitas vítimas adoram serem esgotadas por seres esvaziados e sem alma.

Outros são amigos que não "tem colchão": são secos, superficiais e aterrorizados se precisam destrancar um sentimento. Encenam precariamente que estão atentos, mas na realdiade só pensam em sua magreza de espírito.

Justiça seja feita aos amigos tipo Edward (de Crepúsculo e Lua Nova): são silenciosos, taciturnos, problemáticos, mas estão com sua helping hand estendida bem na hora em que você precisa. Da mesma forma que surgem, esvaem-se.

Há os amigos que "estrangulam" você e os amigos que "esfolam". Há ainda os "doidos de pedra" que a gente insiste em deixar que fiquem atormentando nossa paz.

"Eu sempre contei com a ajuda de estranhos" dizia Huma Rojo combalida, enfraquecida pelo castigo da vida no filme Todo sobre mi madre (de Almodóvar).

Os "estranhos", esse seres humanos acidentais que são inseridos em nossa vida, executam algo e partem forever são os melhores amigos.

Doam aquele velho sentimento humano tão em desuso, há tanto tempo, que, de repente returns back to life no gesto, no sorriso, no suporte de um totalmente amigo estranho: a SOLIDARIEDADE.

Esse tipo de amigo eu tenho aos montes. Faço um desfile na memória, defile de situações inusitadas em que esse tipo kind and special de amigo apareceu em my entire life.

São os melhores por terem sido tão fugazes e tão profundos. Nos tocam pela singeleza e pela humanidade em seus gestos afetivos que não esperam nada em troca. Agem e desaparecem na multidão.

Ser amigo é ser capaz de amar.

Há muitos que nem sabem o sangue novo que nos deram (já que falei de vampiros e Edwards).

Amigos não são bons pelo tempo que ficam.

São bons pela marca afetiva e vida que nos deixam.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O Mundo



Sem Atitude não Criamos e não transcendemos a Experiência.

Pensando sobre esses três conceitos, olhei para a minha vida e concluí que acabo de encerrar um ciclo, iniciando outro. Este ano inicio o 4º ciclo da minha vida.

O 3º ciclo durou 10 anos e o chamarei de "Come back to life".

Explico: após 15 anos casada, me divorciei em 1999 e comecei my personal life sem nada, totalmente All by myself: sem trabalho, sem experiência, sem casa, sem família, sem dinheiro. Meu principal medo, aquilo que mais me aterrorizava era passar fome, entre outras tragédias.

Avaliando hoje os 10 anos desse ciclo, pude elencar 10 motivos que me ajudaram a ser quem sou:

1- Nunca passei fome.

2- Focalizei minhas energias em meus filhos João Caetano, Davi e Raquel, que se tornaram pessoas sensíveis, centradas, inteligentes e que buscam autonomia.

3- Ganhei dois filhos jovens, que somente acrescentam sentido e felicidade à minha vida: Carlos e Aiman.

4- Recebi ajuda inimagináveis, tanto emocionais, quanto financeiras. Pessoas me deram suporte, acreditaram em mim e investiram seu tempo, seu trabalho, carinho e até dinheiro para que eu chegasse onde estou.

5- Realizei sonhos: fiz mestrado, fui pesquisadora, professora universitária de universidade estadual e hoje sou professora de pós-graduação.

6- Ganhei amor e cultivei amigos verdadeiros. Sempre digo que amizade tem prazo de validade: muitas amizades são pontuais e passageiras, em virtude das circunstâncias. Nunca deixam de ser significativas, porém acabam. Outras tem prazo de validade indeterminado, como os bons vinhos. E recebi vintages especiais, amizades de ótima qualidade.

7- Apreendi conhecimentos em várias áreas profissionais.

8- Desenvolvi uma carreira que evoluiu conforme eu fui evoluindo.

9- Encontrei o centro de minha Roda da Fortuna e me posicionei nele. Agora sei caminhar o caminho.

10- Aprendi a contar com o inesperado, com a oportunidade que aparece, porque você está lá, com a experiência, a criação e a atitude certa.

C´est ça!

E para este ano de 2010 eu tenho o MUNDO, o arcano XXI !


Stephen Covey escreveu que existem três aspectos centrais para sermos Proativos:

* A Experiência - o que vivemos e aprendemos
* A Criação - aquilo que geramos
* A Atitude - a forma como nos posicionamos frente à experiência.

Ser proativo é ser responsável pelas próprias escolhas, ter consciência e liberdade para escolher.

Pensando nisso, como será seu próximo ciclo de vida?!

Salaam Aleikum




segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um mundo ideal?


Acabei de receber um email com duas piadinhas sobre mulheres do século 21. Falavam de auto-estima alta, independência e de príncipes que foram kiked of de suas vidas.
Fiquei aqui pensando sobre isso. Mulheres independentes (como eu já havia escrito em outro post aqui) e um imaginário idealizado de independência e potência.
Se a complementariedade se dissolve e as mulheres se tornam "homens mal acabados", caminharíamos para um mundo uníssono? Um mundo ideal, mas com pessoas mal acabadas?

Os homens à cada dia vão se aprimorando e assimilando a feminilidade.

Aquilo que, um dia, se chamou metrossexualidade estagnou-se numa meta morfose inacabada: assim como as mulheres, esses homens pretensamente são homens, porém com embalagem de mulher.
Àqueles que rejeitaram tal deformação e ainda se posicionam como homens, restou serem comparados a ogros grosseiros, espécime ainda muito requisitado entre algumas camadas da população feminina involuída. Ou restarem casados e criarem pança e careca.

Já reparou que não encontramos homens "livres"? Estão sempre atrelados à uma mulher (pelo casamento), à duas mulheres (pelo concubinato) ou à outro homem. Se acaso encontra-se um homem disponível, imediatamente vem a idéia de que "algum problema ele deve ter".
Se as mulheres querem independência, os homens não a querem? Ou não será bem essa a ordem no silogismo?
De outro lado temos as mulheres independentes que querem homens perfeitos.
Em que mundo estamos?
A mídia nos oferece uma enxurrada de ícons que não pedimos, de mulheres ativas, independentes, bem sucedidas, ultra bem cuidadas, ricas e sozinhas. Basta observar os desenhos infantis com hyper female heroins para entender que estão em fase de incubação novas mulheres potentes.

O pushing do encapsulamento está nos levando à fronteiras perigosas e salvaguardando espaços de controle antes inimagináveis.

Cada um encapsulado em sua própria individualidade, associando-se à isso tecnologias para garantir a sobrevivência do que aí já está: o sistema que oferece os fetiches e seus objetos sexuais inumanos, a facilidade de conexões via redes midiáticas sociais, a promessa de prazer ininterrupto e, para o caso de necessidade, a fertilidade in vitro para pais e mães solteiros.

Queremos esse mundo?

Saudades do tempo das relações humanas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O verdadeiro poder criador



Após um longo e congelante inverno, retorno ao meu blog incipiente com mais um texto provocativo.

Pensar é algo que nunca deixamos de fazer, pelo menos é o que mais acontece nestas minhas esferas direita (haja racionalidade!) e esquerda ( imaginando e criando).

E foi pensando que cheguei à algumas filosofias cotidianas esdrúxulas, mas que cativam alguns leitores com massa encefálica mais aguçada e sensível.

Como eu já disse pessoalmente, ser homem não é, nem nunca foi nada fácil. Às mulheres é dada a liberdade de ser e não ser ao mesmo tempo. Não existe à toa o grande dilema de Hamlet, o príncipe deprimido da Dinamarca, o de ter que refletir sobre ser OU não ser.

As mulheres são educadas por mulheres, logo, fica fácil circunavegar pelas águas informes femininas, ora profundas e densas, ora rasas e histéricas, estéreis. Para ser mulher, não há crise, a não ser aquelas relacionadas às fases lunares e fluxos que vão e vem qual a maré.

Já os homens são educados, nada mais, nada menos pelas mulheres. São as mulheres que dizem aos homens que devem ser homens. São as mães que erotizam seus filhos homens e que indicam caminhos a serem escolhidos vida à fora.

Os homens não se livram das mulheres, nunca. Criam clubes restritos, religiões excludentes, buscam refúgio em cavernas grotescas para negarem e se esquecerem das mulheres que os educam e seduzem. Mas é em vão.

É só voltar às ruas, às casas e lá estão as fotos sobre a estante, as flores no vaso, a capa sobre o liquidificador estorvando o acesso. A casa da mãe nunca fica longe demais. Alguns até exigem que suas esposas tornem-se suas mães, chegando até ao cúmulo de assim as chamarem, tal a dependência.

Os homens fogem às mulheres. Já dizia Dr. Freud que o poder da criação é feminino. É a mulher que tem o poder de gerar vida. Os mitos tentam enviesar esse poder, atribuindo-o à Brahma, Urano, Yawé. Mas a realidade é ocultada por mitos patriarcais.

Os homens fogem ao poder criador da mulher e, de alguma forma, precisam salvaguardar-se desse poder de dar e de tirar a vida.

Os mitos ancestrais contam que foi Lilith a primeira mulher de Adão. Como sua alma era indomável, recusou-se a estar "por baixo" do marido. Deus até tentou explicar que era "natural" que a mulher se submetesse, porém Lilith era livre, consciente de sua sexualidade e caminhou a estrada para fora do Éden.

Essa parte ninguém nos conta, não é mesmo?!

Lilith foi matriarca de um povo que conheceu a liderança feminina. Ela é a noite, a própria lua. Os mistérios que envolvem o feminino, provém de Lilith, mãe geradora, deusa do amor e do sexo, controladora das forças inconscientes (assim como Afrodite, Vênus, Inanna, Ishtar).

Lilith é Eros, a força do amor criador (a LUA), em contrapartida a Logos, a força da consciência, do trabalho, da realização (o SOL).

O que é racional é estreito. O que é irracional é dual, é largo e profundo, denso e raso.

Por isso que os homens fogem às mulheres. Pela força multi direcionada, multi focalizada por ser irracional e indefinida.

Segue a Cabala contando que Deus criou o SOL e a LUA como luzes para reger o dia e a noite. Como tudo é cíclico, o sol e a lua se auto completam, assim como o racional e o irracional, o dia e a noite, a luz e as trevas, o masculino e o feminino, o Yin e o Yang.

O que seria natural, então, seria a complementariedade entre masculino e feminino. Entre Adão e Lilith, entre homens e mulheres.

Como eu dizia ao início, não é fácil aos homens se livrarem do poder gerador feminino. Para isso contribuíram religiões, culturas, costumes que procuram abolir, exterminar ou sobrepujar o poder que tanto temem.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Medo



O medo impele os audazes. A sorte os favorece.

O medo é um instinto necessário para qualquer ser vivo. É ele que nos coloca em alerta e garante a sobrevivência.

Ter medo é saudável e recomendável. O problema é quando o "sentir medo" se torna mais gratificante do que sobrepujá-lo.

O tema reincidente no filme Alexander, de Oliver Stone é o medo impulsionador de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia e conquistador do mundo oriental.

Da mesma forma em que o medo pode paralisar (basta lembrar alguns comportamentos miméticos na natureza, onde o animal finge-se de morto instanteneamente), pode, por impulso, arremessar a pessoa ao encontro de seu elemento gerador, movimentando grande energia psíquica para a reação e para ação.

Como já escrevi uma vez neste blog, a civilização cobrou preço alto para seu estabelecimento e Freud nos alerta que trocamos a liberdade pela conveniência. Passamos a preferir a manutenção do status quo e deixamos a conveniência nos arrancar o tônus muscular, a força de nossas mandíbulas e nossa "força de vontade". Somos flácidos corporalmente e mentalmente.

A iminência do perigo real nos aguça os instintos, acelera a adrenalina para permitir a prontidão para ação, agudiza a análise do momento e deveria impelir à ação.

Alexandre era jovem e inquieto. Aos 20 anos era rei da Macedônia. Tinha suas dúvidas e auto afirmações a consumar. Sabia. Foi educado por Aristóteles e conhecia o mundo da época. Sabia que o continente alongava-se para depois da Pérsia e que pelo mar poderia voltar ao Egito e a seu mundo conhecido.

Conhecimento é a base da competência. Habilidade é o segundo ponto: ele foi educado como guerreiro e estrategista, como príncipe macedônio que era. E a atitude era sua marca pessoal: diante do medo, a impulsividade o impelia à ação, retirando do conhecimento e da habilidade os elementos necessários para ter sucesso. Nunca perdeu uma batalha.

O medo era a fonte geradora de sua grande energia psíquica. Seu comportamento audacioso era avaliado como petulância e instabilidade. Foi conquistador e sanguinário. Destruiu o império de Dario III e apossou-se da Pérsia e Egito.

Ao mesmo tempo era o Defensor da espécie humana, sendo este o significado de seu nome. Como helênico que era respeitou culturas, famílias e incentivava a união de macedônios, gregos e povos conquistados.

Alexandre usava o medo em seu favor, para gerar impulso e ação. E a sorte o favoreceu.

Ninguém mais igualou-se em realizações e conquistas.

Alexandre sentia medo e foi Magno, o Grande.

Ci vediamo presto.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ser iluminado




"O progresso nem sempre é uma unanimidade".

O que é mais triste é encontrar jovens que não sonham, que não criam e não acreditam.
Se fossem velhos, voi-lá.

Columbus disse que os iluminados carregam o peso de todos os demais.

As grandes mudanças vieram de iluminações, enlightenings e de ações igualmente grandes.

Se seu corpo muda a todo instante.
Se suas células se renovam inteiramente à cada 7 anos.

Então, será que você é o mesmo com toda essa renovação?

Mudar é algo intrínsecamente humano. É adaptar-se e readaptar-se, quando necessário.

É transformar a si e ao mundo.

Enlight yourself!

domingo, 30 de agosto de 2009

Cristóbal Columbus



Parlez-vous Français?
Non, monsieur.
Je ne parle pas Français.
Mon vocabulaire c´est petit, monsieur.
C´est ça!


Você é competente? Em quê?

Afinal o que é competência?
É conhecer, desenvolver habilidades e realizar.

É muito bom ser surpreendido em uma situação desafiadora e você reagir com suas competências e se sair relativamente bem.

Ser desafiado, querer avançar em conhecimento e em espaços deveriam ser desejos de todos os seres humanos.

Esta semana assisti de novo ao filme "1492- Conquest of Paradise" e sempre é bom pensar em Cristóvão Colombo, genovês, navegador, estudioso das grandes teorias náuticas e físicas que indicavam a existência de terra navegando em linha reta à partir da Europa.

Colombo foi um dos grandes que me marcaram na adolescência: sabia, desenvolveu habilidades e agiu. Desafiou o oceano e as regras da época, porque intuía que a terra estava lá.

E pensar que uma embarcação era como uma casquinha de ovo à mercê das intempéries e sobre toda a energia dos oceanos.

O ato grandioso de Colombo não foi chegar à terra do outro lado do Atlântico. Isso foi realizar.

O que foi grande em Colombo foi quebrar os dogmas da época sobre monstros e o fim dos mares, sobreviver à Inquisição, persistir até conseguir apoio da rainha de Castilla y Aragón e articular os interesses da coroa e igreja ao seu projeto de chegar às Índias.

Trouxe o Novo Mundo como hálito de redenção ao Velho.

Quando penso em competência, penso em Cristóbal Columbus.

Lá, depois da curva, o que é que tem?

Au revoir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Tércio & Elvis


Suspicious mind. Love me tender. You are always on my mind.

Minhas fases revival sempre vão e vem e, neste último período, tenho recebido as visitas de minhas primas e primos em meu orkut, deixando recadinhos e revirando minhas fotos nos álbuns.

Relembrar os momentos da infância é se alimentar de afeto e aconchego para, então, voltar olhar para o futuro.

Devido aos encontros virtuais de nossas memórias de primos, minha viagem ao passado me trouxe Tércio & Elvis.

Ouvindo A little less conversation dois dias atrás, me dei conta de que Elvis e Tércio estão vinculados em minha lembrança. Mais que vinculados: um não existe sem o outro.

A última vez que vi meu primo Tércio já faz alguns bons 20 anos.

Ele já não era mais o garoto gordinho do qual me lembrava. Estava homem e com um ar semelhante a minha avó Maria Gimenes.

Tércio era terrível e inquieto. Sempre aparecia com umas tiradas absurdas ou estórias malucas, invertidas. Tirava um barato de tudo, fazia a gente ficar com raiva ou vexada pelas troças que pregava. Era raro um momento de conversa "normal" com ele.

Eu tinha 10 anos, ele uns 12 e conversa não existe entre crianças dessas idades, ele já pré adolescente. Meu primo Tércio era surreal para mim, garota tão inibida e sem graça que eu era. Em meu álbum do orkut existe uma foto em que eu e ele éramos "casal" de honra no primeiro casamento da prima Priscila. Eu com 4 anos e ele com uns 6 anos. Imagine: os dois doidinhos pra largar a mão do outro! Que micos fazem a gente passar, né, mãe?

O Tércio era uma incógnita para mim. Eu não o acompanhava e, nem de longe, eu o entendia.

O que ele não sabe é que onde Elvis está, ele está junto. Para mim, claro.

A coleção de LPs de Elvis Presley que ele tinha àquela época era algo fenomenal para 1976. Ele se orgulhava de ter TODOS os Long Plays gravados até então (e olha que muita gente que está lendo este post não sabe o que é Long Play). Eu olhava aquelas capas coloridas, ouvindo o que ele dizia e flutuava nos ares de minha total ignorância de criança.

As capas de LPs, as músicas que eu ouvia, os macacões ultra-sexies que Elvis usava, com aquelas costeletas másculas toda vida, foram sendo amalgamadas às lembranças de Tércio.

Hoje entendo que a inteligência dele estava lejos da minha à época. Era demais pra mim.

Tércio, meu querido primo: dedico à você este post, sem saber bem ao certo onde você está aí em Santa Catarina e como está a situação de vocês após as enchentes.

Espero que goste das lembranças ternas e da pequena homenagem.

O tempo passa, a gente envelhece por fora, mas carrega um oceano de boas lembranças por dentro, lembranças que nos mantém vivos e aquecidos!

Aloha!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Camiños de hierro


La estoria de mi familia es toda compartida com la estoria de los trenes.

La familia Costa y la familia Prado Veiga desde el comienzo de sus vidas en Brasil estuvieron cerca los trenes y las carreteras de hierro.

El sonido del tren, la gente que ia y venia, el desarollo de pequeñas ciudades através del tráfico de gentes y cosas por los trenes.

Fue con gran orgullo que mi bisabuelo Firmino Prado Veiga (en la foto) empezó dedicarse al trabajo en los camiños de hierro de un pequeño pueblo nel interior de São Paulo.

Su traje era como um aparato de honor. Su trabajo era como um compromiso con el destino del pais.

Identicamente mi bisabuelo Caetano dedicavase al trabajo en la estación de trenes en Casa Branca. Son millones de historias de la estación, las personas del pueblito, sobre el comportamiento de mi bisabuelo, tan controvertido.

Mis dos familias desdoblaron los camiños de hierro de São Paulo.

A lo mejor tengo historias de camiños y destinos.

domingo, 16 de agosto de 2009

Orient Express Route: Spiceries´ Power




A alimentação pode servir para inúmeros fins: manter o organismo vivo, ser uma rotina enfadonha ou motivo de negociação entre mãe e filho. Pode ser ainda um sacrifício ou um prazer tão grande que escraviza alguém.

Meu filho Davi dizia outro dia que o mais importante no alimento é o cheiro. É ele que vem primeiro, que cativa você e te deixa em transe alucinatório até que o objeto desejado seja degustado.

São experiências mágicas, transformadoras sentir o cheiro da comida sendo preparada, da alcaparra na carne, do alecrim, manjericão e óregano, do bolo assando, da goiabada sendo derretida, do chocolate escaldando no creme de leite e virando trufa, sem falar no café coando e silenciosamente nos torturando com seu cheiro hipnótico, muito melhor que seu gosto. Como pode? Beber café é frustrar-se ao infinito. Ele não corresponde ao seu aroma entorpecente.

O prazer do aroma e da degustação transformou o mundo, desenvolveu a navegação, criou comércio entre o mundo ocidental e o oriental. Podemos afirmar que somos fruto da corrida desenfreada pelas especiarias. Quem nunca estudou na escola que a circunavegação do mundo se deu em função da descobertas de novas rotas até as especiairias, como tentativa de quebrar o monopólio árabe, muçulmano?

E pensar que os grandes mercadores venezianos e genoveses enriqueceram aos montes ao transportar canela! Hoje é algo tão trivial que nos aleja deveras de seu passado histórico.

Se você já reparou um dia, os árabes utilizam grãos e especiarias na culinária há séculos. Na Índia a comida tem cores e aromas tão magnetizantes, quanto o cenário do país e suas cores saturadamente harmoniosas.

O livro Especiarias & Ervas Aromáticas: História, Botânica e Culinária, de Jean-Marie Pelt, nos conta como os depósitos egípcios há 2.000 anos antes de Cristo ficavam abarrotados de canela, cardamomo, ébano, gengibre, como se fossem cofres repletos de ouro.

Os gregos, na era clássica, costumavam degustar comidas exóticas preparadas com um mix de vinho tinto e inúmeras especiarias, verdadeiras iguarias culinárias. Desde muito primitivamente as especiarias estão ligadas ao refinamento.

Na era medieval, servir banquetes com pimentas, açafrão, cúrcuma, pápricas era sinal de poderio econômico e estatus social. Somente nobres utilizavam sementes e pós, que valiam seu peso em ouro.

Com o tempo e com a invasão do mercado por inúmeros mercadores (após 1500 d.C.), como tudo que há em excesso acaba virando commoditie, as especiarias passaram a ser mais utilizadas nas culinárias regionais européias e se popularizam. A Espanha começa a produzir açafrão, por exemplo, e os mercados migraram para outros objetos de desejo (talvez escravos para as terras que produziam açúcar).

Degustar pode ser uma experiência tão potente, quanto uma montanha russa ou um body jump. Já demonstro pra você!

O contato com o diferente, com o exótico e aromático mundo oriental deixou os europeus reféns de um grande poder mágico: o poder do olfato, da visão e paladar gustativo.

Você que come arroz com feijão, por exemplo, já experimentou colocar curry no arroz e folhas de louro no seu feijão? Ah! Você pode me dizer que Arroz ao Curry é coisa de grãfinos e não é comida para o dia a dia.

O curry irá te custar uns 0,10 centavos de Real e trará um aroma indiano à sua segunda-feira, além de uma cor estupenda e vibrantemente amarela. O louro custa igualmente e foi planta utilizada para coroar atletas que se igualavam aos deuses, vencendo os jogos nas Olimpíadas gregas. Além de presentear você com um sabor ligeiramente ácido e verde.

Sim. Sabor tem cor, sim! E à isso damos o nome de Sinestesia!

Degustar um Kolhapuri Kombdi ou frango com gergelim, coco, sementes de papoula, pimentas, cúrcuma e com uma pitada de cravo em pó e canela, pode ser uma viagem sideral.

Os sabores são registrados em diferentes partes de nossa boca: a língua pode captar o sabor doce em sua ponta, a acidez em suas bordas, o amargor na parte inferior, próximo a garganta e no meio percebemos o sabor salgado.

Comer uma comida indiana com páprica picante, coco ralado, mostarda, curry, canela e cravo em pó, faz com que seu cérebro seja bombardeado pelos sabores e estímulos em diferentes partes de sua boca e língua. Não tem adrenalina melhor!

Costumo dizer que o sabor explode em nossa boca, como se fosse uma chuva de fogos de artifícios. Uma comida pode ter um sabor ao início e outro ao final do contato com sua língua e as conexões entre eles fica lá com nosso cérebro, todo espezinhado pelos aromas, cores e sabores.

As mães sempre falam para não brincar com a comida, mas degustar um chocolate com canela, um bolo molhado com leite e cravo em pó ou um estupendo bife au poivre , como faz meu querido filho João Caetano é uma brincadeira extasiante!

Sempre brinco que as bruxas nada mais eram que cozinheiras.

Ou será que as(os) cozinheiras(os) é que são bruxas(os)??

Aproveite e assista ao filme ESTÔMAGO, do diretor curitibano Marcos Jorge, para entender o que é poder.

Ci vediamo presto!

Realidade, passe amanhã!




Vivemos como em sonho.

Para seu domingo, que começará antes do meu, deixo a reflexão sobre "Life is dream".

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros.


Federico Garcia Lorca - Ciudad sin sueño - Nocturno de Brookling Bridge


Soon, be right back!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Che, el Argentino.



Ernesto Guevara era um homem comum. Um argentino comum, como os argentinos.

Tinha sonhos, ambições e um lado humano aguçado: escolheu ser médico pelo serviço às pessoas, por sua doença incurável ou até mesmo escolheu ser médico pelo status. Não sabemos.

Sua imagem é forte, sempre trajando uniforme miliciano e ao empunhar os famosos charutos cubanos, adicionava mais força ainda à imagem.

É isso.

Ernesto de la Sierna Guevara criou uma imagem de si.

Ao deixar Buenos Ayres em uma motorcicleta para conhecer a Améria Latina era ainda "el fuser", porém, ao se deparar com as realidades, continente acima, vai sendo transformado por elas e sua identidade vai mudando.

Isso é fácil observar no filme "Diários de Motocicleta" de Walter Salles, descontando o fato que El CHE era um homem grande e robusto e nosso querido ator Gael Bernal é franzino e baixinho. Talvez isso ajude na construção dessa identidade imagética: de franzino à robusto durante a tranformação de homem à imagem.

Ernesto se transforma ao ter em mãos a literatura de José Martí. Ernesto reflete sobre a realidade que vê. Ernesto sente e vai mudando de atitude.

Já no filme "CHE, el Argentino" de um diretor americano e produção de Benício del Toro (que estrela o filme), vemos o CHE robusto, mais próximo do real. Destaque dou ao Raúl, irmão de Fidel Castro, "coadjuvado" por um Rodrigo Santoro feioso e com poucas falas em espanhol para não demonstrar sua pouca habilidade com a língua. Pobrecito!

A selva tropícal úmida, arrastada e pegajosa é a tópica do filme que retrata a tomada de Sierra Maestra, início da Revolução cubana. Novo desconto deve ser dado ao diretor que "tentou" usar técnicas de documentário e "real time" no filme. A parte mais interessante foi a registrada em P&B com cenas com foco excentrado e algum movimento folhetinesco, como um documentário.

Já a parte colorida era como a selva cubana: úmida, arrastada e pegajosa. Até Che Guevara era flaquito nos discursos à tropa de rebeldes, muito diferente das fotos que temos dessa época. O ranço da selva aumenta a asma de Che, ao mesmo tempo em que nos enche os sentidos de uma pesada umidade relativa do ar. Até a voz de del Toro é flaca, não conferindo autoridade ao CHE.

Pois bem, com a revolução e tomada de Havana em 1959, Ernesto já era o CHE conhecido pelos revolucionários cubanos, claro que devido à sua identidade argentina, mambos-tangos e ches que o acompanham. Como escrevi em outro texto sobre identidade, onde quer que vamos, levamos a nossa.

O que observamos nos anos de estabelecimento do novo regime cubano foi o uso da imagem que CHE conseguira. Suas entrevistas à repórter americana e aparições em jornais impressos nos mostram sencillamente um homem satisfeito com a exposição. Dizem que seus textos e ensaios não eram lá aquelas coisas como textos de origem marxiana (ou marxista, como queiram), porém suas respostas de efeito e sua vaidade discreta são aparentes em inúmeros momentos.

CHE como imagem vai se fortalecendo com essa discreta vaidade que algumas fotos transpiram e conforme registram alguns comentários de biógrafos.

A nova identidade de El CHE é de uma imagem pública, um argentino garoto propaganda do regime cubano. O Ernesto se perdeu na imagem e a diferença nunca o abandonou. Ernesto morreu, sua imagem, não. Ela vive sem ele.

Como a imagem transcende o real, a imagem de CHE se tornou a segunda imagem mais famosa no mundo, depois da imagem de Jesus Cristo.

Che Guevara olha para o nada. Sabe-se que essa imagem foi redesenhada por um artista plástico irlandês, Fitzpatrick, que retirou da fotografia de Alberto Korda, o olhar humano de "imobilidade absoluta", "raiva" e "dor" do guerrilheiro e lhe conferiu o olhar sobrehumano de mito.

Sobre essa famosa imagem de Che olhando para o nada, Jonathan Green, diretor do Museu de Fotografia da Universidade da Califórnia, em Riverside, afirma:

"A imagem de Korda se transformou num idioma ao redor do mundo.
Se transformou num símbolo alfa-numérico, num hieróglifo, um símbolo instantâneo.
Ela reaparece misteriosamente sempre que há um conflito.
Não há nada na história que funcione desse jeito."

Amém.

domingo, 9 de agosto de 2009

Please, leave your message.


Escrevo mensagens em uma garrafa.
Permita-me saber se você leu e gostou. Ou se não gostou.
Preciso saber se me distancio demais em minha ENTROPIA.

Please, leave your message!

Pais e mães solteiros


Vivemos uma época em que ser solteiro virou opção de vida.

Ontem eu li uma matéria que falava sobre mulheres solteiras e uma delas disse: "sou solteira, o que é difente de estar solteira".

Ser solteira é escolher a vida dessa forma e estar solteira é um estado de transição, enquanto se espera outro alguém chegar. Outro alguém que se encaixe no seu sonho, como disse Cazuza.

Há algumas semanas uma revista publicou matéria de capa sobre o aumento de pessoas sozinhas que trocaram os amigos reais por amigos virtuais. Claro que as faixas etária e socioeconomica são as mesmas da matéria de ontem.

Conviver com outras pessoas sempre foi difícil. É só pensarmos em nossos avós e quando diziam sobre a dureza da vida e da necessidade de emprestar dinheiro, por exemplo. Sempre fui de família pobre: meu avó paterno moldou calçadas e praças da cidade de São Paulo com as mãos e meu avô materno era capataz de fazendas.

As pessoas dos séculos XIX, XX tinham personalidade. Explico: ao emprestar dinheiro de alguém a pessoa empenhava a palavra e a honra. Aquilo que a gente ouve sobre "tirar um fio da barba". Hoje, ao ouvir isso as pessoas riem sobre a ingenuidade em se acreditar no fio de barba de alguém como empenho de compromisso para pagar a dívida. Porém naquele época isso significava a honra empenhada.

Hoje as pessoas não sabem o que é honra. Nem o que é dignidade e compromisso moral.

Você já se ocupou em pensar sobre essas três palavras?

Eu estava falando com meu filho ontem sobre sermos moralmente guiados e o quanto isso nos distancia dos demais. Acabamos sendo os "chatos" ou os "radicais" onde vamos. Moral não é aquela da igreja que censura a expressão humana.

Moral são os princípios pelos quais se pensa a vida humana e tudo que a dignifica e honra. Pessoas se alimentando do lixo é imoral, bem diferente de se dizer que o adultério é imoral.

Somos moralmente guiados, quando não aceitamos a indignidade humana, a falta de respeito pela vida e existência de todos. Se o comprimento da saia está curto ou se as pessoas não se comportam isso é falsa moralidade ou moralidade burguesa e invenção de pessoas que se dizem puritanas, o que ninguém é, basta lembrar dos escândalos de padres pedófilos no mundo todo.

Ser solteira hoje tem a ver com a decisão de não aceitar a falta de dignidade e de compromisso que se estabeleceu como norma. Relacionar-se com alguém nunca foi fácil e as pessoas se sufocam em casamentos que são fugas da realidade, como se isso resolvesse alguma coisa.

Casamentos hoje ainda são arranjos financeiros, como sempre foram desde a época em que a família escolhia o noivo e as posses da família dele, para não perder a riqueza com um casamento que poderia falir economicamente a família da noiva.

Hoje é um arranjo para pessoas que ganham pouco e querem muito e fuga emocional da vida de batalhas lá fora.

A formação da personalidade das pessoas passou por profundas alterações desde a revolução industrial e as transformações do capitalismo. Conforme as relações sociais mudaram para relações fragmentadas (muito em função da Divisão Social do Trabalho), as pessoas começaram a mudar, de acordo com o acesso que tinham à sua parcela na sociedade.

A família perdeu a força, porque pai e mãe foram para a rua trabalhar. Os exemplos familiares e morais deixaram de ser transmitidos pelos pais e passaram para a escola ou a empregada doméstica que cuidava dos filhos. E pior ainda, para a televisão.

Somos uma geração sem personalidade.

Não sabemos o que é ter caráter e palavra. Somons fragmentados, assim como os processos de fabrição de massa de tomate: cada um faz uma parte, para não dominar a compreensão do processo como um todo.

Talvez a legião de pais e mães solteiros de hoje seja uma forma de rebelião contra a falta de personalidade e moralidade vigente.

Talvez seja somente um reflexo de personalidades frágeis que não tenham estrutura suficiente para a convivência.

Talvez seja um movimento altamente narcísico e encapsulado, de evitação do contato, da vida compartilhada.

Talvez, ainda, possa ser o último brado da autonomia individual daqueles que se sentem perdidos num mar de gente sem sentido e sem valor, mas que querem dar valor à sua e à de alguém mais.

Talvez possa significar muita coisa ainda.